
A 0 de março realizou-se, como é tradição, a procissão em honra do Senhor Santo Cristo dos Terceiros, que levou milhares de pessoas à Ribeira Grande, naquela que é uma penitente manifestação pública de fé quaresmal, que sai da igreja do antigo convento dos Frades.
Esta celebração dos Terceiros resistiu às vicissitudes do tempo e, graças à Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande foi possível preservar um importante legado de um Património Cultural Imaterial dos Açores.
É de recordar que o convento dos Frades, também conhecido por Igreja de Nossa Senhora do Guadalupe, construído em 1626, encerrou em 1833, devido à extinção das ordens religiosas em Portugal, sendo depois entregue à Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande para acolher o hospital da instituição, em substituição do antigo hospital anexo à Igreja da Misericórdia, no núcleo central da cidade.
Assim, tal como manda a tradição, no I Domingo da Quaresma, realizou-se uma solene concelebração litúrgica, sob a presidência do Vigário Geral da Diocese de Angra, padre Hélder M. Cardoso da Fonseca de Sousa Mendes, acolitado pelo padre Vitor Medeiros, Ouvidor da Ribeira Grande e pelo padre Roberto Borges Cabral. Foi mestre de-cerimónias o capelão da Misericórdia, padre Manuel Galvão. O coro litúrgico foi constituído pelos grupos corais da ouvidoria, sob regência de Gilberto Silva, sendo organista José António Garcia.
Pela primeira vez, nesta festividade, fizeram-se ouvir os acordes do recentemente recuperado órgão de tubos daquela igreja, que embelezou com a sua excelente sonoridade os cânticos litúrgicos da cerimónia religiosa.
Na homilia, o padre Hélder M. Cardoso da Fonseca de Sousa Mendes lançou algumas reflexões relativas ao primeiro domingo da Quaresma e lembrou que Madre Teresa da Anunciada se inspirou na Imagem do Senhor Santo Cristo dos Terceiros para levar para Ponta Delgada e promover o culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
O Vigário Geral da Diocese de Angra lembrou que o demónio apresentou a Jesus os caminhos da facilidade, aqueles que buscamos na vida que são caminhos mais fáceis, os quais nos conduzem a uma vida de tentação do prazer, do poder e da idolatria, de idolatrarmos as coisas.
Para ajudar a entender que todos os homens passam pelas tentações, tal como Cristo, quando foi iniciar a Sua vida pública, permaneceu no deserto durante quarenta dias, para dedicar-se à oração, para recolher-se interiormente e encher-se mais de Deus, resistindo a cada uma das tentações, e para cada uma delas deu uma resposta fortalecida pelo poder de Deus.
Este ano, o cortejo processional incorporou um grupo de encapuzados, uma recriação histórica de um ritual processional que terminou nos finais do século XIX, prática que se manteve em actividade nas procissões de penitência franciscana, em S. Miguel. De acordo tradição, a prática de «tomar a disciplina» pelos Irmãos Terceiros, da qual fazia parte o açoitamento e a autoflagelação em público, bem como o uso de crânios humanos, coroas de espinhos e cruzes utilizadas, como também adereços cénicos durante a procissão, passou a ser um costume comum neste tipo de manifestação pública, durante os séculos XVII e XVIII, condizente com o seu carácter de movimento penitente.
O capelão, padre Manuel Galvão, à medida que cada um dos 10 andores saíam da Igreja, fez-se uma explicação evocativa da história de São Francisco de Assis e dos santos pertencentes à Ordem Terceira, enquanto o professor universitário Duarte Chaves explicou a incorporação dos encapuzados naquela procissão, que antes saia na própria Quarta-feira de Cinzas.
Participaram nesta vetusta procissão muitos Romeiros da Ouvidoria da Ribeira Grande, bem como representações bombeiros voluntários, escuteiros e estudantes da Universidade dos Açores e da escola secundária.
Este ano registaram- se muitas promessas que ladearam o andor do Senhor Santo Cristo, numa devoção secular na cidade da Ribeira Grande.
A presença de franciscanos nos Açores vem desde os primórdios do povoamento destas ilhas. Entre finais do século XV e meados do XVII, a comunidade franciscana edificou 18 mosteiros em todas as ilhas, excepto no Corvo.
A fundação do Convento na Ribeira Grande esteve ligada ao desenvolvimento populacional e urbano da costa norte de S. Miguel. Em 1592, Gonçalo Alvares Batateiro e sua mulher, Inês Pires, conseguem licença do bispo de Angra,D. Manuel De Gouveia, para construírem uma ermida sob a invocação de Nossa Senhora de Guadalupe que depois foi ampliada.
A Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, tendo em atenção que o ex-convento se encontrava desocupado, solicitou à Rainha D. Maria II a concessão do mesmo, para instalação do seu hospital. O pedido foi satisfeito em 1839, ficando a Santa Casa como sua proprietária, em troca com a Igreja da Misericórdia e com o Hospital do Espirito Santo, imponente tempo barroco do centro da cidade da Ribeira Grande.
Presentemente, aquele templo foi transformado em Museu Vivo do Franciscanismo, sendo gerido pela Câmara Municipal, em obediência a um protocolo temporal assinado com a Mesa Administrativa da Misericórdia local.
Nesta festa é de realçar o contributo exemplar das funcionárias daquele Museu na organização das festividades em honra do Senhor Santo Cristo dos Terceiros, bem como do apoio da Paróquia da Conceição e da Câmara Municipal.
Texto por: Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande























